terça-feira, 21 de julho de 2009

Violência: de que lado ela vem?

Vou publicar aqui um texto que não foi para o meu curso, mas diz respeito à Educação em geral. O texto foi escrito por uma conhecida minha por causa de uns fatos que aconteceram na FAUUSP, que serão explicados a seguir. O que ela escreve só partiu de tais fatos, mas, como disse, fala do ensino de um modo mais geral.

O texto foi publicado em forma de artigo (com imagens) no site do coletivo luso-brasileiro PassaPalavra: http://passapalavra.info/?p=4411#more-4411 No link, é possível ver algumas imagens e também alguns poucos comentários.
Achei um outro texto, que é bastante bom e bem-escrito: Educação: Tecnocracia de esquerda e tecnocracia de direita http://passapalavra.info/?p=3939

Bom, é isso. Aí segue o texto, sem correções, como foi escrito na época.



Violência e tapumes

Uma situação bastante semelhante à que ocorreu na Unesp [Universidade Estadual Paulista] de Franca em 2005 está sucedendo agora na FAU [Faculdade de Arquitetura e Urbanismo] da USP [Universidade de São Paulo]. Aproximadamente 30 ou 40 estudantes estão sendo ameaçados, acusados de «vandalismo» (e a hipocrisia das «boas maneiras» ataca mais uma vez!), após terem derrubado os tapumes de uma das várias reformas que estão sendo impostas à FAU. O prédio, projetado por Vilanova Artigas para ser um espaço livre, flexível e, acima de tudo, um espaço que, por si próprio, fosse capaz de ensinar uma arquitetura mais humana, está em ruínas após anos de descaso (há partes da cobertura, repleta de estalactites, que apresentam risco de desabamento por exemplo).

Que o prédio, como a maioria dos prédios de qualquer universidade pública de terceiro mundo, precisa urgentemente de cuidados e reformas é indiscutível. No entanto, o que está acontecendo neste momento é que o diretor impôs reformas absurdas sem qualquer consenso de toda a comunidade da FAU, sem mesmo passar por aprovação do CONDEPHAAT [Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico] e COMPRESP [Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico e Ambiental da Cidade de São Paulo] (uma vez que o edifício é tombado [declarado oficialmente como monumento] desde os anos 70, ou seja, qualquer obra de reforma ou mesmo de manutenção necessita passar por esses órgãos antes) e do conselho curador da Faculdade (composto por 9 professores, 2 alunos e 2 funcionários) e da Congregação (3 alunos, 3 funcionários e todos os professores titulares − atenção para a proporção!).
As reformas, iniciadas no final do ano passado, em boa parte, são extremamente abusivas. A reforma do jardim, com suas lindas e belas novas plantas (lembrar que a qualquer momento um pedaço da cobertura pode cair na cabeça de alguém…), obrigou a utilização de máscaras respiratórias por semanas, uma vez que o adubo utilizado (próprio para uso em fazendas e não em jardins), misturado à poeira levantada, causou alergias e problemas respiratórios em diversos alunos e funcionários. Na reforma dos pilares, as britadeiras eram usadas várias horas por dia, causando um barulho infernal. E isso tudo acontecendo em uma faculdade de ARQUITETURA, a mesma que nos ensina − ensina? − no primeiro ano as condições básicas de respeito ao bem-estar humano mínimo!
No entanto, o caos que está sendo gerado advém principalmente de uma reforma específica, que é a do terceiro piso,onde ficavam indevidamente os departamentos. As salas dos professores, nesse piso, seriam todas reformadas. Em um dia qualquer, chegamos à FAU e nenhuma delas existe mais. Seriam refeitas. O projeto, surpreendentemente, é de um dos nossos «queridos» professores, que vão ali ganhar sua saleta bem iluminada, bem ventilada, com chão bem polido, enquanto os estudantes continuam tendo seus projetos molhados pela chuva que entra pela cobertura.

Acontece que nesse meio tempo, entre derrubada e reconstrução, espalhou-se uma vontade bastante generalizada nos estudantes de ocupar aquele espaço, de produzir naquele espaço. Mas o mais importante ainda nessa percepção redescoberta foi que paredes levantadas em nada condizem com a proposta do edifício de flexibilidade de uso, de circulação, de criação etc., que supostamente é parte também da proposta de um ensino mais humano, porém muitos dos professores são ferrenhamente favoráveis às reformas (afinal, vão ganhar suas saletas luxuosas, pelo menos quando comparadas ao resto da FAU, além de ganharem, é claro, o projeto desses espaços). As salas dos professores curiosamente fechavam − e fechariam − um pano de vidro que se estende ao longo do edifício, reservando aos alunos um tímido espaço para dizer que o LOTEAMENTO do espaço público não foi completo, que em algum momento se pensou na coletividade (um brinde ao espetáculo!).
Que tudo isso é uma grande hipocrisia, que é assim que as coisas funcionam na universidade pública de terceiro mundo não é de se surpreender. Houve uma Congregação aberta, que supostamente deliberou pela paralisação das obras, claro que por alguns dias, até as coisas, ou melhor, os estudantes, se acalmarem (observação: as obras de reforma do piso do departamento seriam retomadas no dia 26/05). E houve quatro assembléias. Na quarta, contando em torno de 50 alunos (afinal, os outros mil e tantos estavam ocupados tentando ganhar suas boas notas para se formarem como bons arquitetos…) derrubaram os tapumes. Cem metros de tapumes postos a chão a pontapés.
O que pra mim foi o momento mais lindo, talvez um dos únicos bonitos, desde que entrei nessa faculdade, certamente não o foi para o diretor. Nem para os professores. Nem para os funcionários. E, principalmente, para a grande maioria dos alunos. Foi um ato «bárbaro». Foi um vandalismo. Foi uma violência. Uma falta de educação. No dia seguinte, biblioteca, seção de alunos, departamentos (alocados provisoriamente no subsolo), todos eles estavam fechados em repúdio ao nosso VANDALISMO. Mas eles nunca fecharam em repúdio à irregularidade das reformas. Nunca fecharam em repúdio às imposições de um diretor autoritário. A violência com que se loteia o espaço público (em todos os seus níveis e dimensões, não só nesse caso) jamais foi repudiada. Ela sequer é percebida. Fomos acusados de vândalos, de bárbaros. Fomos retaliados pelo diretor, pelos professores e, claro, pelos alunos, os quais alegaram não concordar com tamanha violência (mas nunca propuseram absolutamente nada, nunca quiseram atrasar uma entrega por causa de uma assembléia deliberativa). Um dos alunos, inclusive, filmou e levou a cara de cada um de nós que chutou cada tapume para o diretor.

Uma das pixações nos tapumes
Resultado: o nosso caríssimo diretor Sylvio Sawaya já abriu uma sindicância, apoiado por muitos caríssimos professores, apoiado por muitos caríssimos alunos bem-educados. Ainda não se sabe se o Grêmio (GFAU) (observação: acho necessário lembrar que muitas das pessoas que estavam derrubando os tapumes nada tinham a ver com o Grêmio, com a atual gestão do Grêmio, o que, na minha opinião, tornou tudo ainda mais bonito) levará o processo (o que dá um caráter mais «político», que para mim é irrelevante, mas que para a sociedade em geral talvez tornasse mais fácil a percepção do autoritarismo e da decadência do ensino) ou se serão os estudantes envolvidos processados e punidos individualmente, podendo ser expulsos da Faculdade e cumprir algum tipo de pena. A polícia científica isolou a «área do crime» (realmente, é criminoso lutar para que um espaço público não seja loteado!). Estudantes que participaram foram intimidados, na surdina, por autoridades.
Ora, a violência vem de cima e não dos chutes que derrubaram os tapumes. Nós quase ficamos surdos e loucos com aquelas britadeiras horas por dia em nossas cabeças e os queridos «pacifistas» tiveram a pachorra de dizer que o barulho de 15 minutos da queda dos tapumes atrapalhou as atividades normais da faculdade. Ora, era para atrapalhar. Mas era para mostrar que não somos idiotas e que não vamos mais aceitar tamanho despotismo e falta de respeito!
Confesso que às vezes até dá uma vontade de ser expulsa mesmo e sumir da FAU porque é desolador, é angustiante − mais que isso, muito mais que só desolador e angustiante − chegar de manhãzinha na Faculdade e ver cartazes acusando com veemência de violenta uma ação que na verdade visava derrubar a violência das imposições de uma diretoria, de um corpo docente vendido, cartazes falando sobre «boa-educação» e boas maneiras… Por algum motivo, entretanto, algum motivo que desconheço, eu ainda queria continuar lutando de alguma forma por um ensino menos indecente. E acredito que as outras pessoas envolvidas também gostariam.
Nós estamos com medo. E estou revoltada porque são «eles» quem deveriam estar com medo! Nós, estudantes, sempre tão desarticulados… Tão filhos da boa maneira. Um peso morto na educação. Para que então gastar dinheiro público com a Universidade? Para quem, meu deus? De algum jeito, isso há de mudar. Não sei como vai ser. Mas é preciso tentar ao menos.
No dia seguinte ao ato, o diretor publicou na Folha de São Paulo (ai, a «boa e velha» mídia…) uma explicação medíocre sobre as reformas e, claro, sobre o vandalismo dos alunos. E não há como esperar nada além disso da mídia convencional. Mas será que é possível esperar algo além do ensino (porque da Academia está difícil esperar algo…)? Tentamos até escrever para a Folha, mas não deu em nada, claro.
Encerro com algumas citações que usei como resposta aos diversos cartazes que nos hostilizaram:
«Estes momentos de ação contribuem para a criação momentânea de situações onde tudo parece possível, onde a ordem balança, onde a cidade parece reapropriada, “liberada” em alguns pontos. Estas Zonas Autônomas Temporárias são muito importantes: trata-se de toda um ação sobre o ambiente, sobre as possibilidades que deixa entrever às pessoas o fato de que outra coisa é possível, de que a merda cotidiana não é uma fatalidade. Estes instantes de exaltação − em que o mundo todo parece desmoronar − estão certamente deslocados em relação à realidade, que em geral restabelece logo a ordem, mas são benéficos e indispensáveis. São as pequenas ocasiões que dinamizam, dando esta impressão de que nada será mais como antes, podendo ser catalisadores de energias, pontos de partida de iniciativas, de criações e de ações.» (Urgência das Ruas, org. Ned Ludd).
«[...] nós estamos realmente assustados com estas pessoas. Elas parecem não ter medo da autoridade…» (um experiente capitalista, durante as reuniões da Organização Mundial do Comércio em Seattle, ocorridas no ano de 1999).
«Pensar uma xícara ou um território se faz da mesma maneira» (uma frase do nosso ilustríssimo arquiteto, professor e diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, retirada do texto que publicou na Folha de São Paulo no dia seguinte ao nosso vandalismo).


Algumas correções:-CONPRESP ao invés de COMPRESP-Não se sabe ao certo o número de alunos que correm o risco de serem punidos, mas recentemente se tem dito que é menor do que 30, em torno de 20, 25.








Eu fico me perguntando, relendo esse texto, vivendo essa merda: de que lado vem a violência? De um ensino como obrigação, martirizante, que nos castra o tempo inteiro, que não nos deixa criar, não nos deixa aprender de fato? Ou desses "vândalos" que causaram danos ao patrimônio público (que na verdade nem era público, mas enfim...)?
Uma coisa é fato: a FAU, sempre na correria dos trabalhos e projetos incessantes, parou por causa desse "pequeno incidente". Parou para apedrejar no geral. Mas que discutiu pelo menos um mínimo, discutiu. E, inclusive, tiveram disciplinas que passaram a discutir a FAU, que, muitas vezes, parece tão distante como arquitetura mesmo estando dentro dela, mesmo vivendo-a cada dia...


Abraços

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